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O Castro de Fiães

 

As escavações do Castro de Fiães (Monte de Santa Maria), reiniciadas no Outono de 1971, foram realizadas com uma intenção pedagógica, pretendeu-se facultar aos alunos da Faculdade a prática da Arqueologia. A estação presta-se bem a este desiderato tanto pela abundância e variedades de cerâmicas como pela clara estratificação do terreno.
Os resultados desta campanha, que vamos expor, não serão muito importantes ou esclarecedoras mas, mesmo assim, aprecem de apreciar.

Como se pode ver pela planta sumária que apresentamos (Est. I) escolhemos pela abertura dos primeiros quadrados o local que fica a nascente da capela de Nossa Senhora da Conceição (Est. II, 1) que no diário das escavações foi denominado Sector A. Aí foram abertos três quadrados designados de norte, por I, II e III, como na planta (Est. I) se mostra. O II foi prolongado no sentido poente com intenção de recolher uma amostra estratigráfica mais completa e reconhecer uma parede, na planta marcada com a letra ª Este aumento fez do quadrado II um rectângulo.
De maneira genérica, a escavação revelou-nos uma zona bastante atoalhada, cujo espólio, na sua grande parte, remontará aos sécs. IV-V. Só numa pequena porção do rectângulo II, na parte sudoeste, se encontrou um estrato, que3 continua para debaixo do adro da capela - o sétimo - que poderá, talvez atribuir-se aos sécs. I-II. Os restos de parede, descobertos, são tardios, de aspecto relativamente pobre, com um ou outro fragmento de tégula no seu paramento. Pertencia a um edifício modesto, pois têm alicerces muito frustes e o aparelho é pequeno (Est. II, 2).

Como a planta nos mostra há, na parte central da zona escavada, uma parede quase no sentido este-oeste e cujo remate, para nascente, ainda não foi descoberto. A poente, a sua altura diminuindo até acabar por desaparecer. A escavação desta zona mostrou-nos que o estrato 7 foi destruído ao cavar-se o alicerce para lançar esta parede.
No espaço do quadrado III aparecem dois muros assinalados na planta (Est. I) com as letras B e C, que estão interligados (Est. II, 3). A destruição da banqueta, entre o III e II quadrados, mostrou que, por sua vez, a parede B se unia à parede A anteriormente descrita. Estes três muros deveriam fazer parte do mesmo edifício por estarem interligados, serem de largura correspondente e terem orientação, estrutura e aspecto condizente. O muro C, com cerca de meio metros de altura, encontra-se encostado a um talude, cavado no saibro natural, e tem por isso uma só face. Continua-se ainda por debaixo das zonas a escavar. Esta parede será a de mais recente construção por se sobrepor à B e esta, por seu turno a ª É provável, que no topo Norte do muro B pudesse Ter havido uma entrada estreita que, se existiu, teria aspecto fruste, por falta de soleira e por as outras pedras da base da ombreira serem de pequeno tamanho.
Neste sector A o maior número de camadas estratigráfica está do lado poente de cujo corte apresentamos um desenho planificado (Est. III, 1). O primeiro estrato que não cobre todo o sector, com variação geológicas de terra vegetal e de cal, deriva da limpeza do adoro e da capela. O espólio arqueológico que nos deu era, cronologicamente, muito variado: um ou outro resto de cerâmica de época moderna, alguns fragmentos de sigilato clara D e uma pequena porção de bordo de vidro de uma taça gomada, polido a esmeril, de coloração verde muito pálida, do sec. I. A Segunda camada é de saibro e deriva, sem duvida, do desaterro efectuado por causa das obras do adro. O 3º estrato, de cor escura estaria a superfície antes da feitura do adro. Cobria todo o sector. O seu espólio, de épocas v
Várias, adiante está descrito. O estrato4º de colaboração barrenta, ligeiro e pobre em espólio, deve remontar à obras da 1ª capela. A Quinta camada, de cor escura, terra vegetal tem muitas pedras cuja posição, segundo o seu centro de gravidade, não é a de deposição natural, o que revela ser camada revolvida. Do ponto de vista arqueológico foi o estrato mais rico, dando sobretudo, materiais do sec. IV e outros, certamente posteriores. Inicia-se no muro C e continua no topo norte do sector, abrangendo-o, porém, todo na parte central, no sentido nascente-poente (Est. III, 1 e 2). O sexto é formado por uma espessa camada de terra amarelada, com bastantes pedras misturadas, e data certamente o fim do edifício. A cor barrenta é resultado da argamassa das paredes caídas.
Aí foram encontrados materiais também dos sécs. IV-V. O sétimo estrato corresponde a um piso que, pela cinza e cerâmica aparecida, parece relacionar-se com um solo de habitação. Deu cerâmica cinzenta com decoração brunida, de tradição da época do ferro do Centro do País e outro aspecto mais arcaico, de pasta muito micácea e arenosa, com sintomas de Ter sido ultimada à mão. Há mesmo um pequeno fragmento totalmente de fabrico manual, este estrato foi cortado para o lançamento do muro A, antes referido. Quase no topo norte deste corte há mais dois estratos, o oitavo e o nono. O primeiro de cor escura, arqueoligicamente foi estéril e o segundo, com cinza e saibro, pareceu-nos ser um piso de ocupação, mas nada de importante deu por ele Ter sido descoberto só uma pequena parte. Estendeu-se para a zona oeste, ainda por escavar.

Quadrado I

A terra proveniente do aterro do adro não atingia a superfície deste quadrado. O estrato 1 de terra negra vegetal, corresponde, por isso ao nível 3 dos demais quadrados.
O espólio, limitando-se a seis pequenos bordos de cerâmica de bom toque, com manchas escuras, pasta muito arenosa, tardios e a um bocado de vasilha, de paredes espessas, pasta cheia de areia, mas bem cozida, que apresenta ornamentação pintada, feita por linhas de ocre escuro (Est. IV, 1). No estrato dois, de pouca espessura, apareceram dois pequenos fragmentos de sigilato hispânica, muito reduzidos e de má qualidade e o bordo de um almofariz (Est. V, 1), cor avermelhada, pasta bem cozida e arenosa, certamente de época tardia. O terceiro estrato, corresponde ao quinto nos outros quadrados, deu abundante cerâmica: um fragmento de sigilata clara C, diversas amostras de sigilato hispânica, de aspecto tardio, alguns fragmentos de um tipo de cerâmica que julgamos estar na sequência da forma 37 tardia, hispânica, a que adiante aludiremos, além de diversos bordos de cerâmica bem cozida, pasta muito arenosa, possivelmente posterior ao séc. IV. Encontrou-se ainda um fragmento de louça de pasta mais apurada, cor escura (Est. IV, 2 e V, 2), que pela forma e perfeita modelação, parece de boa época, embora tenha mau toque. Sendo escura é porém, muito diferente da cerâmica cinzenta de tradição pré-romana.
No estrato quarto aparecem alguns fragmentos de cerâmica cinzenta, decorada a seixo e parte de um bojo de ânfora romana, de coloração beije. Na base do estrato encontraram-se dois bocados de cerâmica, muito micácea, feita a mão, de aspecto pré-romano, uma das quais pertencia a uma asa de secção redonda.

Quadrado II

O estrato primeiro deu materiais quase só da época moderna a não ser um fragmento de vidro, de uma taça gomada, do sec. I, a que já nos referimos.
O terceiro, geologicamente formado por uma terra escura, vegetal, deu sobretudo cerâmica tardia. Entre ela distinguimos um fragmento de sigilata hispânica, pequeno em demasia para lhe definirmos a forma, um bocado do gargalo de uma bilha (Est. V, 4), e um bordo de prato fundo, pasta cheia de areia, sinais externos de Ter sido utilizado nas lareiras (Est. V, 4). Estes dois últimos tipos de cerâmica são vulgaríssimos nas necrópoles luso-romanas, tardias, da região. Salienta-se ainda o encontro de um pequeno dolium de cor avermelhada (Est. V, 5)
O estrato 4, estreita camada de cor barrenta, deu pouco espólio: um fragmento de asa interior, de secção D, muito frequente em níveis castrejos romanizados, um bocado de asa geminada de cerâmica e um peso de barro, possivelmente de tear.
O quinto estrato, corresponde a grande camada de remeximento, de terra negra, com muitas pedras e restos de tégulas, ofereceu, além de seis moedas do sec. IV, diversos fragmentos de um prato de sigilata clara vermelha, estampada, de boa qualidade e bom desenho (Est. IV, 3). Neste mesmo estrato aparecem dez bocados de bordo de clara D, da forma 54 de Lamboglia, e que, ao mesmo em parte deviam pertencer ao prato antes referido. Apareceu ainda um bordo de almofariz de clara D, da forma 38 de Lamboglia (Est. V, 6) e um fragmento da parede de uma 29, hispânica (Est. IV, 4 e V, 7), de pasta cheia de calcite e de verniz espesso e brilhante, mas muito estalado. Parece-nos ser uma imitação fruste, da forma 4, hispânica, uma vasilha (Est. IV, 5 e V, 8) aqui encontrada, porque, embora no interior da pasta seja esbranquiçado, cobre-a um englobe avermelhado. As maiores diferenças estão no pé. Havia ainda muita cerâmica que pelas formas, qualidade, coloração e toque de pasta, era de época tardia. Entre ela caracterizamos três pedaços de bordo (Est. VII 1,2 e 3), os dois primeiros de pasta arenosa, coloração cinzenta-terrosa, bom toque, e o terceiro, de grande olla, também de boa cozedura, tem pasta mais apurada e é de cor avermelhada. Neste estrato, apareceu ainda um pedaço de imbrex (Est. IV, 6) com as letras A I, e o lábio de uma ânfora, de boa qualidade, bem cozido e coloração esbranquiçada (Est. VII, 1)
Como no estrato quinto também, no sexto havia muitas pedras e fragmentos de tégulas, mas a sua cor era barrenta. Entre o material apreciado salienta-se um bocado de peso cerâmico, trapezoidal, um resto de cerâmica cinzenta, um fragmento trilobado, tão frequente na louça luso-romana de necrópoles da região e diversos restos de aspecto tardio. Foi neste estrato que apareceram vários fragmentos de uma tigela, perfeitamente reconstituivel, tipo de louça que foi muito frequente em todo o sector, que servia para pisoar e que consideramos uma sequência da forma 37 hispânica, tardia (Est. VI, 4). Baseamo-nos para afirmar isto, sobretudo em um fragmento de tigela, reconstituivel, existente no Museu de Antropologia do Porto (Est. IV, 7) e que pelo verniz cor de laranja, pouco aderente, no lado externo, ausência de pé e sem verniz internamento, sem polimento deve considerar-se uma 37 tardia, lisa, embora tipilogicamente, algo de diferente das formas dadas por Mesquiriz.
O estrato 7, relativamente fino, composto de terra saibrenta e cinza, sugere ter sido o piso de uma casa ou terraço de ocupação. Ocupava a zona sudoeste deste quadrado, estendo-se para debaixo do adro. Como já referimos, foi em parte destruído para lançar os alicerces do muro A e poderá datar dos fins do Sec. I. Dentre o espólio salientamos um fragmento de pé de cerâmica, bem torneado, de boa qualidade e do género da "imitação bracarense" (Est. VIII, 1), um fundo de louça cinzenta, bem cozido e bem modelado (Est. VIII, 2) e três outros fragmentos de cerâmica da mesma qualidade com decoração brunida (Est. VIII, 3, 4, 5 e Est. VII, 2). Aparecem ainda dois bordos de pratos, um de tonalidade acinzentada (Est. VIII, 6 e VII, 3) e outro de cor avermelhada (Est. VIII, 7 e VII, 4)pastas cheias de areia e mica, o que garante o seu arcaísmo, tanto mais que têm sinais de terem sido ultimados à mão.

Quadrado III

No estrato 1 apareceu um bordo de prato de vermelho pompeiano, de boa qualidade e, seguramente, de importação (Est. VII, 8), sem referencia a estrato encontra-se já um fragmento de fundo de prato desta qualidade, bem torneado (Est. VIII, 9).
No nível dois alem de um resto de uma 15/17 sud-gálicica (Est. VIII, 10) de muito boa qualidade, verniz muito aderente e de forte brilho, foram encontrados dois fragmentos de cinzenta, decorada a seixo, e um bocado de um fundo de boa cerâmica, com englobe branco. É possível que este restos, de boa época, tenham vindo das obras do adro. Um bordo, bem cozido, avermelhado (Est. VII, 5), parece tardio.
Também aqui, apareceu um bordo de dolium pequeno (Est. VII, 6), que pela mica que tem e pelas tonalidades avermelhadas e escuras que apresenta deve ser antigo.
No estrato 3, na sua base, há a notar o aparecimento de minúsculos fragmentos de cerâmica micácea, de aspecto manual.
Sem quaisquer referências estratigráficas, por resultarem de achados fortuitos, noticiamos o encontro de um fragmento de uma 37 hispânica (Est. VIII,11) e o fundo de um pequeno vaso, pasta internamente vermelha e externamente cinzenta, que foi areado (Est. VIII, 12). Por parecer de boa época, é possível que tenha sido influenciado pelos vasos de paredes finas, areados.
Concluindo podemos afirmar que este sector, embora com sintomas do Sec. I, foi ocupado mais tardiamente, provavelmente no sec. IV.
Apesar da abundância de cerâmica, por não se Ter encontrado uma boa seriação cronológica dos estratos, não ficamos com uma ideia muito precisa da evolução da louça comum, local. O próprio estrato 6 deu materiais tardios. Os restos arquitectónicos exumados, certamente pertencentes ao mesmo edifício, têm aspecto tardio e na parte dusoeste do quadrado II uma porção do muro A rasgou parte do estrato 7. Não conseguimos definir a finalidade do edifício, esperamos que novas escavações produzam resultados mais esclarecedores através de estratos, cronologicamente, melhor seriados.

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